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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

CRÍTICA | 'O Outro Lado do Paraíso' confunde licença poética com subestimação da inteligência do público


Que O Outro Lado do Paraíso é um enorme sucesso de audiência e repercussão, isso é indiscutível. O mesmo, porém, não se pode afirmar quanto à sua qualidade. Tão carregada de clichês mal utilizados que chegam a transbordar pela TV e se esparramar no chão da nossa sala, dona de um texto de uma pobreza abaixo da linha da miséria e onde a realidade, a lógica e o bom senso são personagens que quase não aparecem na trama, fica a pergunta: por que causa, motivo, razão ou circunstância faz tanto sucesso?!


As bases criativas de O Outro Lado do Paraíso não surpreendem ninguém. Assim como fez com Amor à Vida, o autor Walcyr Carrasco "inspirou-se" em filmes, livros, novelas e séries de TV de uma forma quase literal e agora continua seu caminho de reinterpretações de velhos recursos dramáticos que já conhecemos muito bem. Não é difícil encontrar inúmeras """referências""" (e bota-lhe aspas nisso) de outras histórias nela. De uma coisa não podemos reclamar: a trama está sempre em movimento e cheia de grandes viradas. Porém, as motivações para que a novela ande são o ponto mais delicado.

Nos últimos capítulos, por exemplo, a vilã Sophia (Marieta Severo) seguiu sua trajetória como serial killer e tratou de despachar mais uma personagem para o além a tesouradas. A prostituta Vanessa (Fernanda Nizzato) foi vítima da megera porque era testemunha do ataque da vilã à sua vítima anterior, Laerte (Raphael Vianna). Enquanto isso, Elizabeth (Gloria Pires) finalmente voltou a usar sua identidade original após ser surpreendida pela antiga família em pleno julgamento no qual era acusada de matar Laerte e defendida por Adriana (Julia Dalavia), sua filha (sem que nenhuma das duas soubesse do parentesco, inicialmente). A ex-Duda teve problemas de saúde por conta da emoção de rever a filha, o ex-marido e a amiga, sendo que esta última era cúmplice do sogro Natanael (Juca de Oliveira), que foi quem obrigou a moça a se fingir de morta. Agora, Natanael tenta dar cabo da vida de Elizabeth com as próprias mãos. São momentos de fortes emoções, mas que trazem uma grande incoerência.

Afinal, se Sophia e Natanael são tão ruins que são capazes de matar, por que é que não fizeram isso antes? Se Sophia tivesse matado Clara (Bianca Bin) logo de cara, não estaria agora enfrentando a fúria vingativa da mocinha. Interná-la num hospício era o mesmo que deixar uma bomba-relógio pronta para explodir. E se Natanael tivesse mandado matar a nora, ao invés de obrigá-la a se fingir de morta, não estaria, agora, presenciando o retorno dela. Claro, se a coisa tivesse acontecido de outra forma, não haveria novela. Mas, sem dúvidas, falta coerência na trajetória de ambos. O autor deveria ter, ao menos, criado um motivo mais forte que justificasse o fato de os vilões terem preferido pôr em prática seus planos mirabolantes contra as protagonistas da novela, ao invés de simplesmente matá-las. Mas isso não aconteceu. Agora, ficam as pontas soltas. Uma filha não lembrar de sua mãe, como é o caso de Elizabeth e Adriana, também é inconcebível. Pense: Adriana tinha uns 10, 11 anos quando sua mãe "morreu". Idade suficiente para ter uma ótima lembrança, não é mesmo? Fora isso, havia fotos, vídeos e coisas do tipo. É impossível esquecer. Isso foi um furo grande demais explicado de maneira tosca.


Por mais que seja uma novela, é difícil "voar" e digerir situações como essa (entre tantas outras da trama, que se listasse aqui ficaria horas escrevendo) sem causar um certo humor involuntário. A preguiça de planejar uma trama que seja coerente com a linguagem visual contemporânea muito bem imprimida pela direção de Mauro Mendonça Filho jogou a novela numa contradição artística bizarra. É como se o texto não tivesse nenhum compromisso com a coesão do que quer dizer e o resultado dessa falta de intelecto é uma série de diálogos didáticos e grosseiros que até querem se fazer de importantes e diretos, mas que só são toscos e pobres. As decisões são tomadas por vontade e não por ação de circunstâncias implantadas com a inevitabilidade necessária para que um "destino" nos pareça real e emotivo.

Os problemas avançam para os outros núcleos que sofrem da mesma falta de sutilezas. Alguns diálogos são construídos de modo tão pouco naturalista que soam escritos por alguém que começou a escrever dramaturgia ontem. O caso da anã vivida por Juliana Caldas é o mais perturbador nesse sentido. É claro que evidenciar o sofrimento e o desajuste de uma pessoa de baixa estatura rejeitada pela mãe é importante, mas tudo fica superficial e barato quando essas conversas entre Estela e Sophia parecem conversas travadas entre Cinderela e a Madrasta Má. Ao invés de escolher mostrar uma mulher pequena com alma grande, decidida, forte e ativa na vida, Carrasco escolheu apresentar uma mulher pequena com alma menor ainda, viciada em vitimização e discorrida na história como se fosse revolucionária, disputada por dois lindos homens. Virou uma chatonilda! Essa vilania chapada, aliás, é um problema sério da novela. A socialite vivida por Fernanda Rodrigues durante o período de empregada doméstica de Clara parecia uma vilã mexicana daquelas que usam até tapa-olho. E o que dizer dos impropérios de Nádia (Eliane Giardini)? Se o objetivo era discutir o racismo e causar uma conscientização através dela e Raquel (Erika Januzza), falhou miseravelmente. Soa mais como algo gratuito, feito puramente para chocar quem assiste.


E o que dizer do núcleo de Samuel (Eriberto Leão)? Inicialmente, a vida dupla do psiquiatra era contada em tom dramático, pois ele sofria com a falta de coragem de viver sua real natureza e transformava suas frustrações em comportamentos homofóbicos. Agora assumido e posto à força para fora do armário na vingança esquemática e previsível de Clara, o tom de seu núcleo mudou e agora virou uma espécie de Zorra Total. Walcyr jogou por terra duas temáticas muito interessantes: homossexuais que se escondem em relacionamento de fachada e que usam de atitudes homofóbicas para esconder sua real condição e a de mulheres que se descobrem casadas com um gay. Isso não tem graça. É um drama, assunto sério. Carrasco, no entanto, preferiu seguir o caminho mais fácil e tratou de pisar fundo na caricatura. A cena em que Suzy (Ellen Roche) descobre a verdade, por exemplo, já foi de um pastiche constrangedor, da "forçação de barra" vista no flagra, passando pelo diálogo infantiloide que beirava o ridículo. Até um "cala a boca já morreu" foi disparado por Suzy, para se ter uma ideia do nível de maturidade do texto. E a tendência é que a trama descambe ladeira abaixo. Samuel e Cido (Rafael Zulu) foram morar juntos, na companhia de Adnéia (Ana Lúcia Torre). E Suzy, ao se descobrir grávida, também voltará a viver com Samuel, levando também a antiga noiva de Cido. Os quatro vivendo sob o mesmo tempo transformarão o núcleo numa espécie de "novela paralela", onde o humor raso característico de Carrasco será usado à exaustão. Deus me defenderay!

Para e pense: quantas vezes você já ouviu... Nádia dizendo "aquela preta" e "não sou racista"? Estela reclamando "Você fala isso só porque eu sou anã"? Aquela prostituta lá do bordel que eu nem sei o nome falando que é "moça pura e virgem"? Clara jurando que vai se vingar do psiquiatra, do juiz e do delegado e que "Patrick é um dos melhores advogados criminalistas do país"? Sophia dizendo "não posso perder as esmeraldas"? Suzy chamando Samuel de "tigrão" (agora, "tigresa") e Cido zoando Adneia de "mãe de bicha"? Ou "Marcel que caiu do céu" e "Pronto, falei!" naquele núcleo afetadísssimo do salão? É irritante essa mania do autor de colocar frases de efeito ou bordões repetidos à exaustão na boca de seus personagens. Tem que ser tudo desenhadinho, repetido dezenas de vezes, do mesmo jeitinho infantilóide, para que a "mensagem" seja captada e entendida como se deve; como se o telespectador fosse idiota.


Bianca Bin se esforça, mas, coitada, Clara parece um androide e a vingança da protagonista nem de longe tem a mesma elegância que uma Emilly Thorne da vida (ou até mesmo de uma Nina). Grazi Massafera, cuja Lívia foi anunciada como vilã, simplesmente não aconteceu. Marieta Severo tenta torcer o texto até ele deixar escorrer algo que se aproveite, mas é difícil. Rafael Cardoso luta para dar alguma dubiedade interessante ao seu Renato, mas o texto rasteiro e previsível não permite. Glória Pires parece visivelmente frustrada com uma personagem que não faz sentido. E ver Fernanda Montenegro servindo de oráculo-cego ("As vozes me disseram") é lamentável. Lima Duarte ainda consegue defender seu Josafá com uma sensibilidade notável. E é preciso admitir que o trabalho de Sérgio Guizé como Gael é surpreendentemente bom, considerando o texto tão rasteiro. Alguns sites começaram a divulgar que ele deve passar a ser mocinho e sua fase de sofrimento na cadeia foi um indicativo disso. Se a notícia de que ele deve passar por uma espécie de "exorcismo" for confirmada, o estrago promovido por O Outro Lado do Paraíso já será definitivamente leviano. O agressor de mulheres só bate porque bebe e desperta um "encosto", a culpa não é dele… Um precedente terrível em um país com números alarmantes de violência contra a mulher.

Acredito que a altíssima audiência da novela se dá porque o autor escolheu como par romântico a catarse e o maniqueísmo, sem o benefício da dúvida, o que fisga telespectadores menos exigentes que só querem se distrair em frente a TV. Muito comum em histórias infantis em função da necessidade de se estabelecer conceitos com inequívoca clareza. Já para seres humanos com idade mental superior a 14 anos... De uma falta absoluta de sutileza e uma visão infantilizada da vida, Carrasco promove mil e uma reviravoltas em sua história, mas mandando a lógica e o discernimento às favas. Confunde polêmica com sensacionalismo; confunde verdade nua e crua com grosseria; confunde licença poética com escárnio e subestimação.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Enfadonha, 'O Outro Lado do Paraíso' carece de equilíbrio e sutileza


Depois de uma novela maravilhosa que vira fenômeno, como foi o caso de A Força do Querer, o desafio para que a novela sucessora consiga entrar no coração do público fica ainda maior. E é justamente nesse desafio aí que O Outro Lado do Paraíso anda falhando miseravelmente. Abaixo, listo os três principais motivos que me fizeram rejeitar a trama (e creio que represente grande parte do público também).

Excesso de clichês: As duas histórias centrais da trama das nove giram em torno de duas "muletas" já tão exploradas no horário nobre nos últimos anos. A história de Clara é a típica história da heroína vingativa, que aparece quase na frequência de "novela sim, novela não" e parece ter sido feita na base do "copiar e colar" de Chocolate com Pimenta, também escrita por Walcyr Carrasco. E a de Elizabeth, além de ter semelhanças fortíssimas com Madame X, também já foi vista inúmeras vezes: ela forjou a própria morte e mudou de identidade. Se juntar estas duas histórias centrais, já remetemos à A Lei do Amor, com a mal ajambrada saga de Isabela/Marina (Alice Wegmann). Tudo bem que, como diria Chacrinha, na TV nada se cria, tudo se copia, e novela nada mais é do que um novo jeito de contar uma mesma história; mas a sensação de "hum, já vi isso em algum lugar" é tão forte que chega a incomodar.

Primeira fase longa demais: Desde o início, sabíamos que Sophia (Marieta Severo) armaria para internar Clara (Bianca Bin) num hospício para poder explorar a mina de esmeraldas de seu avô. E que Clara, anos depois, conseguiria fugir e retornaria poderosíssima para se vingar da vilã e de todos que lhe fizeram mal. Mas este plot foi sendo adiado em razão de cenas e situações que foram se repetindo exaustivamente. Era Clara apanhando de Gael (Sérgio Guizé) capítulo sim, capítulo também (e a gente tendo que aturar esse embuste); era Elizabeth (Glória Pires) fugindo de Natanael (Juca de Oliveira); era Nádia (Eliane Giardini) e Sophia disparando barbaridades preconceituosas a cada aparição para, respectivamente, Raquel (Erika Januza) e a filha anã; era Samuel (Eriberto Leão) tentando fugir de sua homossexualidade... Enfim, várias histórias que ficaram andando em círculos e só enrolando. Bem que a direção podia ter cortado as gorduras do texto e adiantado logo a história principal. Esta primeira fase de O Outro Lado do Paraíso deveria ter sido mais curta. Uma ou duas semanas seria suficiente.

Falta de sutileza: Walcyr Carrasco sempre pecou na construção de seus textos, com diálogos fracos e excessivamente didáticos. Nas suas novelas das seis (de época e com pegada cômica), não chegava a incomodar tanto assim, mas o mesmo não acontece quando falamos de uma trama contemporânea e com os dois pés fincados no drama, como é o caso de O Outro Lado do Paraíso. Aqui, o autor não economiza nas frases feitas, no didatismo fora de hora ("Eu não entendo de leis, mas isso é homicídio culposo, não é?", disparou Elizabeth ao matar, acidentalmente, seu amante Renan/Marcello Novaes) e nas ofensas gratuitas feitas puramente para chocar e deixar claro os perfis dos personagens. Sem sutileza, o autor mostra que seus malvados adoram xingar todo mundo. É o caso de Nádia, que diz em alto e bom som: "Não quero meu filho namorando uma preta! Deus me livre de ter netos 'torradinhos'". É por aí, pra pior, o nível dos comentários da maioria dos personagens. O que incomoda é que, na vida real, o preconceito não é tão escancarado. Os diálogos de Walcyr passam longe da hipocrisia que costuma rodear esses assuntos. É tudo direto, na lata, sem rodeios. O mesmo acontece com o drama de Estela (Juliana Caldas). Sophia fala para quem quiser ouvir que tem horror à menina, a chama de "monstrengo", "aberração". Outra situação bizarra envolvendo essa questão foi o comentário de Lorena (Sandra Corveloni) ao encontrar a família da amiga. Dirigindo-se a Sophia, perguntou sobre Estela: "Essa é a sua filha de baixa estatura?". Não há sutileza ou meias palavras no texto da trama e é justamente isso que incomoda. O problema não está no clima sombrio, nos temas polêmicos, no excesso de vilões ou na falta de um núcleo cômico, mas sim no texto, que não dá um "descanso" em momento algum. As histórias de Bibi (Juliana Paes), Silvana (Lilia Cabral) e Ivana (Carol Duarte), por exemplo, em A Força do Querer foram tão espinhosas quanto e, mesmo assim, Glória Perez deu uma cara solar e agradável para a novela antecessora do horário e desenvolveu sua trama com a sutileza necessária que permitiu que o telespectador se envolvesse sem se sentir cansado ou angustiado.

Walcyr tem a sorte de contar com grandes nomes o cercando, que imprimem credibilidade à obra. A direção de Mauro Mendonça Filho é impecável, dando um acabamento maduro a uma novela que, apesar da trama forte, carrega muitas características infantis. Além disso, o autor conta com um elenco estelar, que, até aqui, vem driblando como pode as deficiências do texto. Apesar dos pesares, O Outro Lado do Paraíso demonstra potencial para deslanchar. Afinal, Carrasco é um exímio contador de histórias e sabe bem mexer com o público e, principalmente, oferecer à audiência o que ela quer. Resta aguardar.

sábado, 27 de agosto de 2016

Eta Mundo Bom foi um "feijão com arroz" requentado que deliciamos como um manjar dos deuses



Existem duas formas de assistir Eta Mundo Bom. Ou você embarcava na total despretensão da novela (deixando de lado os vícios do autor e de parte do elenco) e acabava se divertindo com o universo criado por Walcyr Carrasco ou fincava o pé no perfeccionismo e torcia o nariz para as inúmeras repetições e problemas que a trama apresentou. O público preferiu a primeira opção, afinal, a novela se tornou um fenômeno de audiência e terminou com média geral de 27 pontos na Grande São Paulo (a maior do horário das seis desde 2007, com o fim de O Profeta).

Particularmente, em qualidade, nesse período de 2007 pra cá, ainda prefiro largamente tramas como Sete Vidas, Além do Tempo, Lado a Lado, Cama de GatoA Vida da Gente Cordel Encantado e considero-a a mais fraquinha das tramas das seis escritas pelo Walcyr (Alma Gêmea, Chocolate com Pimenta e O Cravo e a Rosa foram bem superiores). Se eu fizer um "Encontre o erro" em Eta Mundo Bom, não hei de terminar de apontar todos eles tão cedo.

O mais evidente deles é a Filomena (Débora Nascimento), uma das mocinhas mais fracas e insuportáveis da teledramaturgia brasileira, tanto pela má trajetória criada pelo autor, quanto pela má atuação de sua intérprete (leia AQUI). Aliás, o que não faltou em Eta Mundo Bom foram atuações canastronas. São os casos, além da dita cuja, de Eriberto Leão (Ernesto), Rainer Cadete (Celso), Klebber Toledo (Romeu), Flávio Tolezani (Araújo), Giovanna Grigio (Gerusa), Rômulo Neto (Braz), Guilhermina Guinle (Ilde), entre outros. Falei mais detalhadamente sobre os atores e atrizes que mais se destacaram (para o bem e para o mal) na novela bem AQUI.

O texto (didático) do Walcyr também foi outro ponto sofrível. Enquanto os personagens da cidade falavam um português extremamente culto e corretíssimo, com o verbo sempre no infinitivo ("Sandra está a tramar algo!", "Estou a esperá-lo", "Hei de conseguir", etc), os da fazenda falavam todos errado e com um sotaque caipira pra lá de caricato e estereotipado.


Poderia falar também dos núcleos que não foram bem desenvolvidos ou que só serviram para encher linguiça. Como o casal Gerusa e Osório (Arthur Aguiar), que teve inspirações em A Culpa é das Estrelas e foi afetado pela atuação inexpressiva da Giovanna Grigio e pela falta de química entre os dois atores. Se o tema da leucemia era para emocionar, missão realizada sem sucesso. Outro núcleo dispensável era a da madrasta má com o enteado cadeirante. Nada ali fazia sentido: nem o ódio gratuito que Ilde sentia pelo enteado, nem o fato de Cláudio (Xande Valois) nunca revelar ao pai as humilhações que sofria dela. Depois de mais de cem capítulos adormecido em seu jardim secreto, o núcleo só veio ganhar função a partir do momento em que Sandra (Flávia Alessandra) usou Araújo para roubar a fortuna da titiiiiiia. A vingança de Braz contra o pai também demorou demais para, enfim, ter função e ganhar outros desdobramentos. Aquele povo lá da radionovela "Herança de Ódio" também foi dispensável e poderiam serem excluídos sem grandes prejuízos. Aliás, pruma novela que promove uma radionovela de verdade em seu site oficial ("Herança Do Ódio" existiu no Gshow), pouquíssimos personagens de Eta Mundo Bom a ouviram. E o que dizer daquele núcleo da Emma (Maria Zilda Bethlem) e dos "amigos" Tobias (Cleiton Morais) e Lauro (Marcelo Arjenta)? Totalmente desnecessários!

Poderia criticar também a repetitividade e os inúmeros giros dos acontecimentos da trama que foram se desgastando até cansar. Alguns casos: as maldades de Ilde contra Cláudio, as inúmeras tentativas do Romeu em se casar com Mafalda (Camila Queiroz) e comprar a fazenda, as inúmeras tentativas da família de Cunegundes (Elizabeth Savalla) tentando vender a fazenda (que estava em leilão desde o começo da novela), os inúmeros planos mirabolantes da Sandra e do Ernesto tentando dar um golpe em Anastácia (Eliane Giardini), as inúmeras tentativas de fazer o cegonho do Pandolfo (Marco Nanini) voar, os inúmeros disfarces do Pancrácio (Marco Nanini), as centenas de vezes que Gerusa e Osório dançaram valsa, a indecisão de Mafalda sobre qual cegonho escolher (ela só decidiu no último capítulo), os casamentos desfeitos em pleno altar, as guerras de comida, os banhos de chiqueiro, entre outros ciclos viciosos.


Também foi possível identificar milhares de semelhanças em Eta Mundo Bom com outros folhetins do Walcyr. O autor conduziu sua história reutilizando vários elementos conhecidos de suas novelas anteriores da faixa, como a comédia pastelão através das guerras de comida, dos banhos de chiqueiro, casamentos fracassados, núcleo na fazenda com caipiras e bichinhos de estimação e na tentativa de emplacar bordões e expressões à constante repetição (os principais exemplos foram o bordão "Meu nome é CU-negundes!" , dito pela fazendeira quando alguém lhe chamava de "Boca de Fogo", e a expressão cegonho para se referir ao órgão sexual masculino). A Sandra (pelo menos, no início), em muito, lembrou a Cristina de Alma Gêmea (ainda mais porque ambas são loiras e vividas pela Flávia Alessandra); assim como a Mafalda parecia mais uma reedição da Mirna (Fernanda Sousa) de Alma Gêmea (só trocou a pata pela porquinha) e o final de Gerusa e Osório, felizes para sempre "em outra vida", lembrou muito o desfecho de Serena e Rafael (Priscila Fantini e Eduardo Moscóvis) de Alma Gêmea. Já vimos também mulheres encalhadas como a Eponina sonhando em se casar e o Ari Fontoura vivendo um marido submisso em outras tramas do autor. Para alguns, esta ideia se caracteriza uma total falta de ousadia e criatividade, enquanto outros pareceram não se importar com o fato.

Foi como eu disse no início dessa matéria: ou você embarcava na total despretensão da novela (deixando de lado os vícios do autor e de parte do elenco) ou fincava o pé no perfeccionismo e torcia o nariz para as inúmeras repetições e problemas que a trama apresentou. Quem optou pela primeira opção e ligou o "dane-se" para todos esses pontos negativos apontados fartamente anteriormente, acabou se divertindo com o universo criado por Walcyr Carrasco. E, afinal de contas, não é isso que se espera de uma comédia romântica? Fazer rir?


Com sua receita simples, seus personagens queridos, populares e carismáticos (como Candinho, Pancrácio, Anastácia, Pirulito/JP Rufino, Mafalda, Cunegundes, Eponina, Zé dos Porcos e Maria/Bianca Bin) e, principalmente, sua mensagem otimista de que tudo que acontece de ruim na vida da gente é para melhorar (falei sobre isso AQUI), o autor conseguiu um feito admirável e que poucos autores de novelas alcançam com tanta frequência quanto ele: a de unir todas as massas em torno de uma mesma história em um determinado horário.

Em tempos de noticiário carregado de violência e escândalos das mais variadas origens, a trama virou um antídoto eficiente contra a soturna realidade. Eta Mundo Bom nos remeteu aquelas clássicas novelas em que nos tornávamos público cativo, sentadinhos à frente da TV, naquele horário certinho, levantando só para ir ao banheiro na hora do intervalo para não perder nadinha. Mesmo nesses tempos de concorrência acirrada, com outras formas de entretenimento e mil possibilidades de se assistir o que se quer à hora que se deseja (como pelo próprio Globo Play, da emissora), o gostinho de vê-la às 18hrs na TV tinha um sabor mais do que especial. Foi um feijão com arroz requentado que deliciamos como um manjar dos deuses. Eta novela boa!


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Entre mortos e feridos, quem conseguiu se salvar do texto teatral de Eta Mundo Bom?



Quem acompanha as novelas do Walcyr Carrasco, sabe que o autor não tem um texto fácil e exige que o ator siga à risca o que ele escreve, sem cacos. Seu estilo teatral e empostado na escrita já foi visto em vários trabalhos anteriores e é até condizente com a proposta ora melodramática, ora farsesca de suas novelas das seis, como é o caso de Eta Mundo Bom. Percebam que na trama os personagens da cidade falam um português extremamente culto e corretíssimo, com o verbo sempre no infinitivo ("Sandra está a tramar algo!", "Estou a esperar""Hei de conseguir""Perdoo-te por me traíres", etc), enquanto os personagens da fazenda falam errado e com um sotaque caipira pra lá de caricato e estereotipado.

O problema é que o texto do Walcyr só funciona quando o ator é experiente. Até funciona no teatro, mas na televisão (e no cinema) há de se ter cuidado para não parecer que o ator não acabe resvalando no jogral de escola. Como uma faca de dois gumes, alguns conseguem pronunciá-lo sem perder a naturalidade e brilham em cena, enquanto outros acabam canastrando. Confira os destaques positivos e negativos do elenco da novela:

OS SOBREVIVENTES


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Sérgio Guizé - A alma de Eta Mundo Bom! Poucas vezes se viu um ator honrar o protagonismo de uma novela com tanto brilhantismo como ele, que não ficou devendo em nada ao Mazaroppi (que imortalizou o personagem do filósofo Francês Voltaire nos cinemas e que também inspirou a trama do Walcyr), dando um jeito próprio ao caipira. Nem mesmo o fato do Candinho ter ficado sem sua grande parceira em cena, visto que a Debora Nascimento não conseguiu se firmar como protagonista e par romântico (leia mais abaixo), abalou o sucesso e a credibilidade do personagem. Candinho poderia soar ridículo se mal construído e sua ingenuidade excessiva irritante, mas o domínio do ator foi tanto que a gente não apenas torce pelo Candinho, mas também tem vontade de cuidar dele, de orientá-lo, de abraçá-lo, de tê-lo por perto como amigo.

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Eliane Giardini - Quando uma grande atriz tem o seu talento valorizado, é sucesso na certa. Na pele da destemida Anastácia, a intérprete deu um show do início ao fim. Acabou sendo uma compensação do Walcyr, que não havia a valorizado em Amor A Vida, onde viveu a Ordália. 

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Bianca Bin - Foi a mocinha moral da história! O que seria dos personagens bons de Eta Mundo Bom se não fosse as investigações da Maria, que desconfia até do ar que respira? Praticamente, todos os planos infalíveis da Sandra foram por água abaixo graças a perícia na arte de investigar da personagem. Confesso que até cansou ver tanta desconfiança em uma só personagem, mas a Bianca Bin é tão boa atriz que um papel de coadjuvante era um espaço muito pequeno para o seu talento. O drama de Maria, aliado a excelente atuação da sua intérprete, engoliu a Filó.

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Marco Nanini - Depois de treze anos vivendo o Lineu de A Grande Família, ganhou os gêmeos Pancrácio e Pandolfo e um leque de personagens com os disfarces do Pancrácio durante todo o decorrer da trama. Confesso que, inicialmente, não via futuro naquela trama dos disfarces, que, verdade seja dita, já cansaram a muito tempo de tantas repetições. Até porque temos que saber "voar" muito (como diria Glória Perez) para achar verossímil que um homem velho desses consiga enganar todos os personagens disfarçado de noiva (?) ou bailarina (??). Porém, o Nanini é tão fantástico que a gente acaba perdoando a incoerência e não consegue parar de rir.

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Camila Queiroz e Rosi Campos - Após anos fazendo figuração de luxo em novelas (sua última personagem realmente relevante foi a icônica Mamuska de Da Cor do Pecado, de 2004), Rosi Campos finalmente foi valorizada como merecia em Eta Mundo Bom. A ingênua e engraçada Eponina foi interpretada com maestria por ela e se destacou sempre. Sua dupla com Camila Queiroz na busca em conhecer o "cegonho" também foi perfeita. Camila, aliás, já pode ser considerada uma das maiores revelações da TV dos últimos tempos. Fazer uma personagem marcante e complexa como a Angel de Verdades Secretas e, em tão pouco tempo, logo interpretar outro, não é tarefa fácil. Mas ela tirou de letra esse desafio na pele da ingênua Mafalda e provou que tem a trinca perfeita para uma boa atriz: beleza, talento e versatilidade.


JP Rufino, Nathália Costa e Xande Valois - A dobradinha de JP (como o serelepe Pirulito) com Sérgio Guizé, brilhando de igual para igual com o protagonista da trama, foi um dos pontos fortes de Eta Mundo Bom desde o início. Ele, Nathália (a doce Alice) e Xande (o cadeirante Cláudio) são uns amores e fazem mais do que decorar o texto na ponta da língua: passam naturalidade e emoção. Coisa que muitos adultos dessa novela não conseguiu (leia mais abaixo).


Arthur Aguiar e 
Ana Lúcia Torre - Os dois se saíram bem, mas acabaram sendo prejudicados pela outra ponta desse núcleo, Giovanna Grigio (leia mais abaixo). O casal Gerusa e Osório foi mais insosso que salada de chuchu sem tempero, mas Arthur correspondeu a altura nas cenas que lhe exigiram bastante emoção com o drama da doença da amada. A sorte é que os dois são amparados pela Ana Lúcia Torre (como Camélia), mas ela é grandiosa demais para ficar fazendo escada para ex-Chiquitita e ex-Rebelde, merecia uma personagem mais à sua altura.

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Ary Fontoura (repetiu com sucesso a boa parceria com Elizabeth Savala como o marido covarde, Quinzinho), Miguel Rômulo (Quincas), Jeniffer Nascimento (Dita), Dhu Moraes (Manuela) e Anderson Di Rizzi (que já se especializou em viver tipos meios bobos nas novelas do Walcyr, como o Zé dos Porcos) foram os outros destaques positivos do núcleo caipira.

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Flávio Migliaccio e Suely Franco - Sempre achei Donda Paulina meio sem função em Eta Mundo Bom. Apenas a dona do Dancing, realizava alguns números de música lá, algumas armações... Mas agora ficou ótima na reta final da novela ao se casar com Osias (com quem forma um par bonitinho) e juntar-se ao núcleo da fazenda, nos proporcionando cenas hilárias em parceria com a Savalla (falei disso AQUI). Flávio, mesmo em poucas cenas, sempre conseguiu divertir.

OS RESSUSCITADOS


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Flávia Alessandra - Logo que foi anunciada como a grande vilã da trama e seu visual loiro platinado, pronto, não faltaram vozes para dizer que a Sandra de Eta Mundo Bom seria nada mais que uma cópia da diabólica Cristina de Alma Gêmea (2005), personagem que marcou a carreira da atriz (sua melhor atuação) e que também é do autor Walcyr Carrasco. Inicialmente, Flávia estava muito robótica e parecia mesmo ser uma cópia barata da Cristina, mas, com o tempo, a atriz foi contornando os problemas e logo vimos que a Sandra em nada tem a ver com a Cristina. A personagem tem vida e perfil próprios. Mais sensata do que a Cristina (que era passional ao extremo), a Sandra é má por puro interesse financeiro. E Flávia soube distinguir muito bem as duas vilãs com o decorrer do tempo e se destacou cada vez mais nesta reta final.

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Elizabeth Savala - Outra atriz que foi muito criticada inicialmente por sua atuação muito, mas muito acima do tom (era necessário diminuir o volume da TV quando a Dona Boca de Fogo, digo, Cunegundes entrava em cena). Mas uma atriz do quilate da Elizabeth sabe como poucas driblar críticas e se manter digna a um trabalho. Não deu nem um mês e o tom acima da Cunegundes acabou virando a marca registrada da personagem e lhe deu um charme peculiar, o que lhe transforma em uma das mais queridas da novela, mesmo sendo uma espécie de vilã interesseira. Quem consegue segurar o riso quando ela grita "O meu nome é CU-ne-gun-des"? Eu não.

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Tarcísio Filho e Priscila Fantin - Me lembro que, no início, esse núcleo me dava nos nervos. Tudo bem que existem homens extremamente machistas, mas Walcyr pesou a mão quando criou o Severo. Pelo menos, no início. Conforme ele foi se envolvendo com a Diana e, principalmente, depois do golpe que sofreu do filho, o personagem, enfim, ganhou um pingo de humanidade. E foi aí que o núcleo, depois de tanto andar em círculos, ganhou novos contornos. Tarcísio e Priscila (que estava meio deslocada no Dancing) esbanjaram química. Gostei da Pata e do Pato.

OS MORTOS


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Eriberto Leão - Sandra merecia um comparsa bem mais a sua altura. O Ernesto não passou de uma figuração de luxo perto dela. Muito por culpa da atuação canastrona do seu intérprete, forte candidato ao prêmio de pior ator do ano. Sua sorte é que teve química com a Flávia.

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Klebber Toledo e Juliane Araújo - Não adiantou mostrar o bumbum em pleno horário das seis inúmeras vezes (suas melhores cenas foram essas), porque no quesito atuação ficou devendo. Melhor o Romeu ficar com a Sarita mesmo. Ela também ficou devendo (e muito) nesse quesito.

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Rainer Cadete - De um inescrupuloso cúmplice da irmã Sandra, o amor por Maria transformou Celso em um homem bom e honesto. Pena que, ao contrário da Camila Queiroz (ele também fez Verdades Secretas), Rainer não conseguiu vencer esse desafio de se despir de um papel e viver outro em pouco tempo. Por vezes, parecia que o Visky ia soltar as frangas a qualquer momento na novela. Nem mesmo a química com Bianca Bin conseguiu redimir sua má atuação. 



Flávio Tolezani e Maria Carol - Formam um casal perfeito: o Sr. e a Sra. Inexpressividade!

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Giovanna Grigio - Pense numa garota doente mais inexpressiva da história das novelas.... Gerusa!!! Ô garotinha chata! Se a intenção dessa trama da leucemia dela era emocionar, missão realizada sem sucesso. Além da doença ter sido tratada de forma superficial e desinteressante na trama, a canastrice da Giovanna Grigio pôs tudo a perder. Ela não passa emoção nenhuma em cena. Desse jeito, vai ficar difícil para a ex-Chiquitita firmar carreira na Globo...

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Rômulo Neto e Guilhermina Guinle - Em meio a tantos personagens maniqueístas, Rômulo tinha em mãos um que destoava dos demais (o Braz, um tipo pra lá de ambíguo e controverso), mas não soube corresponder à altura, com expressão, entonação e trejeitos lineares, sem nuances (como bem pedia o personagem). O excesso de botox fez mal para a Guilhermina: está completamente robótica! Não convenceu nenhum pouco como madrasta má. Até o episódio do Chaves em que ele, Quico e Chiquinha visitam a casa da Bruxa do 71 deu mais medo que ela.

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Débora Nascimento - Ao que tudo indica, o prêmio de pior atriz do ano já é dela. Filomena foi uma das piores mocinhas de todos os tempos, extremamente cansativa, chorona, burra e insuportável. O seu sotaque caipira soava extremamente falso, o que só piorou o resultado (o sotaque caipira de Filó sumiu misteriosamente num passe de mágica). Pra piorar de vez, não teve química alguma com Candinho, que só não foi prejudicado pela fraqueza da intérprete de Filó porque Sérgio Guinzé está muitíssimo bem no papel (como já falei anteriormente). Em determinados momentos, ficou esquecida e sem função nenhuma na novela. Não deu outra: foi ofuscada pelo brilho da Bianca Bin e a Maria virou a mocinha oficial da história! Cheguei até a pedir que o mandato de Filomena como mocinha na novela fosse cassado (relembre AQUI).

Concordam com a lista? Faltou mais alguém? Dê sua opinião nos comentários!


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Por quais novelas nossos autores merecem uma medalha de ouro, prata e bronze?



Todo mundo sabe como funciona o Brasil antes de um evento de grande porte. A gente reclama de tudo, desde a infraestrutura até do gasto que teremos (NÃO VAI TER COPA!!! NÃO VAI TER OLIMPÍADA!!!), mas quando começa o que acontece? TODO MUNDO AMA! Sim, estou assistindo todos os jogos (na TV, é claro, porque não tenho dinheiro pra comprar ingresso), estou torcendo para os nossos atletas e vibro a cada medalha ganhada. Mas como isso aqui é um blog de novelas, e se fizéssemos uma Olimpíada para os nossos novelistas? Por quais novelas eles merecem ganhar uma medalha de ouro, prata e bronze? Isso você confere agora:











Claro que faltaram outros grandes autores e esse texto é baseado unicamente na minha opinião, portanto, fiquem a vontade para concordar ou não e dar suas sugestões nos comentários!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Brejeira e otimista, Eta Mundo Bom é a novela certa no momento certo




Você, que, assim como eu, é brasileiro e vive no país, já deve ter notado: é um verdadeiro teste psicológico de uns tempos pra cá passear pela TV aberta por cinco minutos sem ter a sensação de que o mundo está acabando e de que no Brasil tudo vai acabar especificamente em crise.

Frente a crise política e social pela qual atravessa o país, o principal motivo apontado por muitos para a rejeição de tramas como Babilônia e A Regra do Jogo foi o excesso de realidade. O telespectador foi acusado de não querer ver na novela das nove nem a realidade nua e crua dos telejornais, nem a repetição da fórmula mau-caratismo/favela carioca/degradação dos valores morais. Mal acabava o Jornal Nacional e, quando o público pensava que iria relaxar e tentar fugir dos problemas do dia a dia por alguns minutos, lá vinha outra vez na telinha derramamento de sangue, tiroteio, chantagens, corrução em todos os setores da sociedade, mortes violentas, bandidos de colarinho branco, tráfico de drogas, facção criminosa...

Neste cenário, Eta Mundo Bom é a novela certa no momento certo. A atual novela das seis cumpre bem com o seu papel de levar um pouco de diversão, respiro e otimismo para os telespectadores num momento tão conturbado. Com média (até o momento) de 27 pontos na Grande São Paulo (que tende a aumentar ainda mais agora que ela está na reta final), é a novela mais vista do horário desde O Profeta, de 2006, atingindo índices impressionantes na casa dos 30 pontos e tornando-se, quase que diariamente, o produto mais assistido da TV brasileira atualmente (posto este que deveria ser da novela das nove). Um verdadeiro fenômeno!


Afinal, "tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra melhorar". Foi com esse discurso de esperança e fé em um futuro melhor que Candinho (Sergio Guizé) e vários outros tipos carismáticos conquistaram o público. Para ele, não tem tempo ruim. Todas as dificuldades são dribladas com bom-humor e otimismo. Afinal, todo mundo tem problema. Alguns mais, outros menos. A vida de Candinho não é fácil, mas ele é um exemplo de pessoa positiva em relação aos percalços que aparecem pelo seu caminho. Não desanima e nunca perde a esperança.

Não há novidade no enredo, nem na estrutura dramatúrgica de Eta Mundo Bom. É uma trama "mais do mesmo". O poder de atrair o telespectador está no carisma dos personagens. Eles são bem delineados dentro do maniqueísmo proposto: bom e mau, vítima e vilão, sem tipos ambíguos. O noveleiro não fica na dúvida entre amar ou odiar, torcer a favor ou contra.

Quem semeou generosidade e amor ao longo da trama, terá seu final feliz, assim como para aqueles que se redimirem e pagaram por seus erros, como Celso (Rainer Cadete), Diana (Priscila Fantin) e Araújo (Flávio Tolezani). Afinal, pelo menos na ficção, tudo acaba bem no final. Na contramão da bondade e do otimismo, personagens como Sandra (Flávia Alessandra) e Ernesto (Eriberto Leão) fizeram de tudo para conseguir uma vida de luxo e riqueza. O resultado de tantas maldades não poderia ser outro: castigo para os vilões. E para mostrar que a ambição não compensa e o que importa é ser feliz ao lado das pessoas que amamos, o sonho do poço de petróleo de Cunegundes (Elizabeth Savalla) se transformou, literalmente, em um banho de lama.

Walcyr Carrasco é craque no gênero comédia romântica caipira. Assim como a atual, O Cravo e a Rosa, Chocolate com Pimenta Alma Gêmea (as três de sua autoria) também foram fenômenos do horário das seis e batiam recordes de audiência. A azeitona no empadão é o humor brejeiro ao estilo das comédias familiares de Mazzaropi. Por mais previsíveis que sejam as situações e piadas, o riso sai espontâneo devido ao envolvimento afetivo entre a novela e seu espiador.

Afetividade esta que gera fidelização. Esse vínculo que transpõe a tela fria da TV faz o telespectador esquecer o controle remoto. Se está sendo entretido, por que mudaria de canal? Walcyr resgata o prazer de acompanhar uma novela do começo ao fim, sem pular capítulos. Hábito cada vez mais raro nos lares brasileiros. A caipirada liderada por Candinho prova que, mesmo após várias mudanças de gerações e costumes, ainda há numeroso público interessado em novela, desde que a mesma cumpra missão básica: divertir com leveza e despretensão.

E essa preferência do público por tramas mais leves e despretensiosas pôde ser comprovada também recentemente em Totalmente Demais e Os Dez Mandamentos, duas novelas escapistas que priorizaram situações tipicamente folhetinescas e sem a preocupação de inovar e foram fenômenos de audiência, respectivamente, do horário das sete da Globo e da Record.


Particularmente, "novelisticamente" falando, não acho Eta Mundo Bom esse filé mignon todo. É bonitinha, bobinha, divertidinha, fofinha... É tudo muito "inha" demais. A novela teve um período inicial pra lá de arrastado e "barrigudo", em que nada de muito interessante acontecia e situações que se repetiam demais. Só não caiu na chatice graças ao divertidíssimo núcleo caipira, o grande destaque da novela desde o início (como falei AQUI). Foi só a partir do reencontro entre Anastácia (Eliane Giadine) e Candinho que a história sofreu uma guinada e passou a empolgar. Histórias, até então, adormecidas, como a do casal Gerusa e Osório (Giovanna Grigio e Arthur Aguiar), do cadeirante Cláudio (Xande Valois) e de Diana e Severo (Priscila Fantin e Tarcísio Filho), passaram a ganhar relevância e, finalmente, disseram a que veio.

Apesar de absurda e bem forçada a forma como Sandra conseguiu dar o golpe na titiiiiia (se Araújo precisava de dinheiro para realizar a operação de Cláudio, porque não pediu emprestado para Anastácia ao invés de roubar toda a fortuna dela?!), foi a partir de tal reviravolta que Eta Mundo Bom conseguiu entrar nos eixos e ganhou de vez a minha preferência. Esta cada vez mais envolvente, com muita ação, reviravoltas e vários ganchos, de tirar o fôlego. Acabamos nos acostumando com os vícios do autor (torta na cara, casamentos desfeitos no altar, gente arremessada no chiqueiro, o texto extremamente didático...) e de parte do elenco (como Rainer Cadete, Eriberto Leão e Flávio Tolezani, entre muitos outros, que dão um show de canastrice) e com a previsibilidade do enredo (ainda faltam duas semanas para a trama acabar, mas não precisa ser um gênio para saber com quem a Mafalda vai terminar e o final de cada personagem, né?). Nem mesmo a songamonga da Filó (Débora Nascimento), que cheguei até a pedir o impeachment dela como mocinha da novela (leia AQUI), incomoda mais tanto assim.

Isso tudo porque embarcamos na total despretensão da novela, deixando de lado o perfeccionismo e tão simplesmente nos divertindo com o universo criado pelo autor, cheio de tipos queridos e carismáticos, como Candinho, Pancrácio/Pandolfo (Marco Nanini), Anastácia, Pirulito (JP Rufino), Mafalda (Camila Queiroz), Cunegundes, Eponina (Rosi Campos), Zé dos Porcos (Anderson Di Rizzi) e Maria (Bianca Bin), que despertam a nossa torcida.

De qualquer forma, apesar de considerá-la apenas uma boa novela, Eta Mundo Bom merece todos os elogios. Afinal, conseguir chegar a quase 37 pontos em pleno horário das seis é um feito e tanto, né? Seja lá como for, em tempos de noticiário carregado de violência e escândalos das mais variadas origens, a trama virou um antídoto eficiente contra a soturna realidade.


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