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sábado, 21 de outubro de 2017

Melhor novela de Glória Perez, A Força do Querer recuperou o prazer de acompanhar com afinco uma boa novela das nove



Faz anos que pedimos uma novela que unisse todas as tribos como foi Avenida Brasil. E parece que, contrariando algumas expectativas, esse momento finalmente chegou. Imensamente criticada em Salve Jorge (não sem razão, pois foi sua pior novela), a autora surpreendeu e resgatou o prazer de acompanhar uma boa novela das nove com afinco. O resultado: um imenso sucesso em todos os sentidos - audiência, público, crítica e repercussão.

Abandonando a antiga fórmula adotada em O Clone e repetida em suas novelas posteriores, Glória Perez mostrou que aprendeu com boa parte de seus erros e apresentou um enredo repleto de histórias fortes, personagens densos e condução ágil em grande parte do tempo.

O ponto de partida de A Força do Querer desta vez trouxe não uma, mas três riquíssimas protagonistas: Ritinha (Isis Valverde), Jeiza (Paolla Oliveira) e Bibi (Juliana Paes). Como é tradição na carreira de Glória, foram elas que ditaram o tom das histórias principais, através de suas vivências, trajetórias, desatinos, sonhos e experiências. Os perfis das três mulheres se complementavam. Ritinha, a sedutora sereia paraense, era uma garota inconsequente e egoísta, capaz de mentir e manipular, mas que não tinha noção do que era certo ou errado e por isso não via maldade em suas ações. Jeiza, a policial e lutadora, foi a representação da mulher dos tempos atuais, que mostra que pode fazer o que quiser e não deixa de ser feminina e sensual mesmo estando em ambientes considerados masculinos. Bibi, inspirada na história de Fabiana Escobar, foi o perfil mais atraente e controverso, ao se envolver com o malandro Rubinho (Emílio Dantas) e embarcar no mundo do crime, para desespero da mãe - um relacionamento que mais tarde se mostraria bastante abusivo.

Em paralelo às protagonistas, se desenvolveram os dramas da família Garcia. Joyce (Maria Fernanda Cândido), casada com Eugênio (Dan Stulbach), acreditava ter uma família perfeita, mas seu castelo de ilusões desmoronou aos poucos ao descobrir que o filho Ruy traiu a noiva Cibele (Bruna Linzmeyer) com a sereia Ritinha e a filha Ivana (Carol Duarte) não se identificava com seu gênero, enquanto o marido, desanimado com o casamento, se deixou seduzir pela interesseira Irene (Débora Falabella). O merchandising social, também recorrente nas obras de Glória Perez, se fez presente através da abordagem de temas como o vício em jogos de azar, através de Silvana (Lilia Cabral); identidade de gênero, protagonizada por Ivana e por Nonato (Silvero Pereira), motorista que levava uma vida dupla, se travestindo como Elis Miranda; e o combate ao crime, através de Jeiza.

Nesta novela, Glória aprendeu com grande parte dos erros cometidos nas novelas anteriores. A autora desta vez trabalhou com um grupo mais enxuto e as histórias foram bem melhor entrelaçadas, permitindo uma maior integração entre os núcleos e personagens. Os dramas das protagonistas foram abordados através de um rodízio, onde uma tem destaque por um certo período, passando para a outra e assim por diante.

A direção da equipe de Rogério Gomes foi outro ponto positivo. A chegada do novo diretor foi um upgrade e tanto, o que permitiu que o afiado texto de Glória se agigantasse na tela. Além disso, várias grandes cenas foram de tirar o fôlego, especialmente as operações policiais e os bailes funks ocorridos no Morro do Beco. E a escolha do elenco foi um grande acerto em sua maioria, com alguns nomes vivendo os melhores papeis de suas carreiras e apresentando promissoras revelações.

Isis Valverde, Paolla Oliveira e Juliana Paes, três grandes estrelas, honraram a força do trio protagonista. Isis esteve fantástica na pele da sereia Ritinha, mostrando todas as facetas do papel com competência e deu um ar misterioso e sensual que coube como luva para a garota paraense. Paolla, por sua vez, ganhou sua protagonista mais completa. Jeiza foi uma personagem cativante e irresistível: policial competente, lutadora cheia de energia e mulher decidida, linda e sexy. E Juliana Paes, maior destaque entre as três, esteve em completo estado de graça, retratando genialmente a impulsiva Bibi, que foi capaz de entrar para o mundo do crime e colaborar com bandidos da pior espécie, em nome do desejo de ser idolatrada - nas palavras dela, "amar grande e ser amada grande". Bibi irritou em muitos momentos por sua extrema cegueira em relação ao Rubinho e por não ouvir sua mãe (e Juliana foi maravilhosa em todas estas fortes sequências. Assim como Ritinha, despertou paixões e ódios.

Dan Stulbach e Maria Fernanda Cândido, atores que andavam sumidos das novelas, voltaram ao formato e se destacaram na pele do casal em crise - aliás, ela foi um dos maiores destaques da novela, mostrando sua competência ao interpretar a dondoca Joyce. Elizângela, intérprete de Aurora, mãe de Bibi, viu sua personagem crescer merecidamente com o destaque da trama de Bibi e emocionou com o desespero da mãe, tornando-se uma porta-voz do público. Zezé Polessa divertiu na pele da interesseira Edinalva, mãe de Ritinha; Emílio Dantas fez uma impecável composição do bandido Rubinho; Tonico Pereira e Luci Pereira formaram uma ótima dobradinha como Abel e Nazaré, pai e tia de Zeca; Lilia Cabral foi fantástica na pele de Silvana; Marco Pigossi e Humberto Martins mostraram versatilidade (dando ótimas nuances que distanciaram seus atuais perfis de outros personagens da carreira); Karla Karenina e Cláudia Mello fizeram de Dita e Zu ótimas confidentes; e Juliana Paiva, mesmo com um papel de orelha, finalmente se libertou dos traços de Fatinha, sua personagem em Malhação, e mostrou que é uma atriz promissora.

A novela ainda trouxe ótimas revelações, a começar por Carol Duarte. A estreante, responsável por Ivana, a garota transgênero que se transforma em homem (Ivan), mostrou uma impressionante maturidade para um primeiro trabalho e protagonizou sequências belíssimas. Silvero Pereira, intérprete do chofer Nonato, que se transforma em Elis Miranda, também esteve perfeito e formou uma excelente parceria com Carol. Dandara Mariana, como Marilda (amiga de Ritinha), fez uma divertida dupla com Isis Valverde. João Bravo, como Dedé, filho de Bibi e Rubinho, foi a grande revelação mirim do ano e emocionou em todas as cenas. Lorenzo Souza, o Ruyzinho, apesar de sua muito pouca idade, encantou pela graciosidade, fazendo todo o elenco (e o público) se apaixonar pelo filho de Ritinha.

Pouco mais tarde, foi a vez de Jonathan Azevedo cair nas graças do público. O intérprete do bandido Sabiá, com seu linguajar do morro, tornou o personagem um dos mais carismáticos da trama, apesar dos crimes nas costas (tanto que a autora desistiu de matar Sabiá e o deixou até o fim). E a novela ainda contou com o retorno de Carla Diaz, que estava atuando na Record, na pele da periguete Carine, a "protegida" de Rubinho, reeditando a parceria com Juliana Paes, agora como rivais.

Porém, mesmo numa boa novela, nem tudo funciona a contento. Também é preciso abordar onde a trama não foi feliz. O erro mais grave foi a escalação de Fiuk para o viver o Ruy. A falta de traquejo do rapaz e sua inexpressividade fizeram com que o personagem (um tipo imaturo e intragável em essência) se tornasse ainda mais insuportável, comprometendo seriamente o conjunto. Isto ficou ainda mais evidente nas cenas que exigiam mais dele, destoando muito dos demais.

Outro erro foi a vingança de Cibele. A ex-noiva de Ruy embarcou em um projeto de se vingar do rapaz que não teve resultado prático nenhum e só mostrou a falta de amor próprio da garota. Tanto que ela perdeu a função ao longo da novela e a personagem de Bruna Linzmeyer não tinha mais razão de existir. Aliás, Bruna não foi a única que ficou avulsa. Outros nomes não tiveram muito destaque, mesmo com um elenco mais enxuto e melhor aproveitado. Foram os casos de Edson Celulari (Dantas, um sócio de Eurico que era apaixonado por Silvana), Gustavo Machado (Cirilo, amigo de Caio), Michele Martins (Shirley, namorada de Dantas), Mariana Xavier (Biga, secretária de Eurico) e Lua Blanco (Anita, amiga de Cibele). A participação de Fafá de Belém como Almerinda, mãe de Zeca, também não disse a que veio.

A vilania de Irene, que prometia atingir todos os núcleos, se restringiu apenas a infernizar a vida de Joyce e Eugênio (inclusive com o surrado clichê da falsa gravidez). A psicopata, cujo nome verdadeiro era Solange Lima, não chegou a apresentar grandes maldades na novela. Ainda assim, Débora Falabella mostrou seu talento e versatilidade e a sequência da morte de Irene, com toques de filmes de terror, impactou.

Ainda se deve enfatizar a má condução do enredo de Silvana, que andou em círculos durante muito tempo e apresentou duas falsas viradas. Eurico chegou a descobrir o vício da mulher e ela foi para uma clínica psiquiátrica, mas logo ela conseguiu fugir e tudo voltou à estaca zero. A repetição cansou, bem como a eterna cumplicidade de Dita e o fato de Eurico não desconfiar de nada.

A novela também chegou a despertar críticas de setores mais conservadores, especialmente em função da história de Bibi - muitos enxergaram apologia e glamourização do crime no enredo. Neste caso, porém, a própria condução do enredo tratou de quebrar este argumento, através da presença de Aurora (a mãe desesperada pela vida criminosa da filha) e Jeiza, a policial competente, e Caio, o advogado incorruptível.

Um ponto que também desagradou foi a resolução dos principais dramas da novela apenas nos últimos capítulos (em vez de fazê-lo gradualmente ao longo do último mês). Com muitos desfechos a se resolverem, havia a chance de o final ficar corrido e as cenas não terem o impacto que mereciam. E, de fato, foi o que se viu em parte do último capítulo. Muitas soluções ficaram corridas, como o momento em que Eurico descobriu que Nonato se traveste como Elis Miranda (o empresário aceitou a situação de forma muito rápida) e o sequestro de Simone, em que Silvana finalmente admite ser viciada em jogos de azar. Também não ficou crível a repentina amizade entre Ruy e Zeca (que passaram a criar Ruyzinho juntos), após a tempestade que os dois enfrentaram novamente (como no primeiro capítulo). Alguns desfechos foram exibidos apenas no bloco final, narrados por Garcia (Othon Bastos). A novela merecia, no mínimo, mais uma semana para tudo ter sido desenvolvido com mais calma e satisfatoriamente.

De qualquer forma, com mais acertos que erros, Glória Perez conseguiu o que parecia improvável nos últimos anos: resgatar a mobilização em torno de uma novela das nove e fazê-la cair na boca do povo. Como resultado, se tornou o maior sucesso do horário desde Avenida Brasil, chegando na incrível (e dificílima de ser alcançada atualmente) casa dos 50 pontos no Ibope em seu último capítulo. Por tudo que apresentou, A Força do Querer não é apenas a melhor novela das nove dos últimos anos. É também a melhor novela de Glória Perez, superando até mesmo a aclamada O Clone. A autora mostrou uma clara reinvenção em seu estilo, criou grandes dramas e personagens ricos, escalou um time de primeira, com inúmeros talentos e poucas exceções, e apresentou uma novela forte, intensa e deliciosa de acompanhar. A Força do Querer já deixou saudades e fatalmente deverá ganhar diversos (e merecidos) prêmios no final do ano.

terça-feira, 21 de março de 2017

Tardes da Globo se tornaram mais interessantes que o horário "nobre"


A teledramaturgia brasileira vive uma fase cinzenta (em especial, a Globo). Não há uma novela que possa ser considerada grande sucesso de audiência e repercussão – seja no boca a boca do povo ou nas redes sociais. Em todas as emissoras, o índice das tramas no Ibope está apenas ok, nada mais do que isso. Falta empolgação popular. Há ausência de expectativa em relação aos desfechos.

Sempre que a TV aberta registra uma fase assim, e isso é mesmo cíclico, surge a hipótese do fim das novelas. "O telespectador teria se cansado do gênero?".

Não, não se cansou. Mas está cada vez menos interessado em enredos monótonos e repetitivos. A maioria das pessoas tem cada vez menos paciência para ficar uma hora diante da TV a fim de acompanhar um capítulo inteiro. Para dar prioridade à televisão, o público exige uma novela arrebatadora, que seja mais interessante do que o infindável menu dos canais pagos e as opções igualmente infinitas na internet. Se a trama vacilar, a atenção é desviada para um filme, uma série, uma transmissão ao vivo no Facebook, a timeline do Instagram, a interação ágil no Twitter, um vídeo besteirol qualquer do Youtube...

Fenômenos de audiência e mobilização virtual de outrora são cada vez mais necessários às emissoras, porém, difíceis de serem reproduzidos. Talvez, por isso, se explique o verdadeiro "Vale A Pena Ver de Novo" que virou a reexibição de Avenida Brasil (último grande sucesso que reuniu todas as tribos em frente a TV às 21hrs na Globo e última novela realmente boa do horário) no quadro Novelão do Vídeo Show. O quadro pega apenas a história principal da novela, conta tudo com uma narradora simpaticona e ilustra com uma ou outra cena da própria trama. Acontece que a edição ficou um poucããããão diferente no Novelão da saga de Nina e Carminha, pois a novela foi exibida quase na íntegra. Longas cenas que não faziam a história avançar foram exibidas, o texto da narração foi bem minimalista e exibiram até as tramas dos núcleos secundários. Foi quase uma exibição pro Vale a Pena Ver de Novo, só que dentro do Vídeo Show, demorando mais de um mês para o seu fim (quando deveria ter sido, no máximo, umas duas semanas).

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Falando no Vale a Pena Ver de Novo, se antes a faixa de reprises era visto como um tapa-buraco na programação, hoje possui importante relevância na média diária de audiência da Globo. Frequentemente, atrai três vezes mais público do que Record e SBT no mesmo horário. A reprise da deliciosa Cheias de Charme, que termina hoje (21) e foi outro fenômeno de 2012 junto com Carminha e cia, chega ao fim com média geral de 17 pontos. Um verdadeiro sucesso, tendo marcado em alguns capítulos mais de 20 pontos.


Para esticar a boa fase da faixa de reprises, a Globo escalou Senhora do Destino, a novela mais assistida dos anos 2000 e última trama realmente decente escrita pelo Aguinaldo Silva. A primeira reexibição na faixa vespertina, em 2009, alcançou média de 21 pontos, com alguns capítulos quase chegando aos 30. Basta uma pesquisa básica para constatar que as empreguetes e Nazaré Tedesco dominam os assuntos mais comentados e geram mais euforia nas redes sociais do que todas as novelas inéditas que estão no ar.

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Esse ótimo desempenho ressalta tanto o saudosismo dos noveleiros por tramas envolventes e carismáticas quanto a dificuldade das produções atuais em atender essa demanda básica. Nos últimos anos, o consumidor de teledramaturgia se mostrou mais exigente, enquanto as novelas parecem ter ficado menos interessantes. O formato não precisa ser reinventado. Basta deixar de ser previsível, entediante ou excessivamente inverossímil. E, acima de tudo, mostrar eficiência na pretensão de entreter, ao invés de irritar (cofcofALeiDoAmorcofcof) ou provocar nossa indiferença (cofcofSolNascentecofcof).

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Os piores e inadequados títulos de novelas



Não sei vocês, mas todas as (poucas) vezes em que assisto A Lei do Amor me surge um questionamento na cabeça: o que tem a ver o título da trama com a história apresentada? Afinal, se houve alguma grande história de amor foi só lá nos capítulos iniciais, quando Pedro e Helô ainda eram vividos por Chay Suede e Isabelle Drummond. Desde que Claudia Abreu e Reynaldo Gianechinne assumiram os personagens, o casal protagonista virou coadjuvante dentro da sua própria história — não por culpa dos atores, que fique claro.

"Sagrada Família", o titulo original, expressava muito melhor do que "A Lei do Amor" o tema principal da novela de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari. Seria um título irônico, claro, pois não há nada de sagrado na família Leitão, em torno do qual gira toda a história — pelo contrário, é cheia de podres, segredos, traições e pra lá de conturbada. Magnólia (Vera Holtz), a grande vilã da história e matriarca dos Leitão, além de todos os seus inúmeros pecados, é hipócrita, pois tenta passar a imagem de beata e vive falando de Deus. Foi capaz de muitas monstruosidades. Tudo, segundo ela, pelo bem da sua família.

Este tipo de problema é muito mais comum do que se imagina na teledramaturgia. Confira abaixo outros títulos inadequados de novela (seja por não terem nada a ver com a trama ou por serem bizarros):

Amor à Vida — A novela expôs preconceito, vingança, dramas pesados, além de ter apresentado muitos personagens com desvio de caráter, que tinham amor a tudo — ao dinheiro, ao sexo, a vilania —, menos à vida. São peças que não se encaixavam. O nome mais apropriado para a trama seria "Em nome do pai", que chegou a ser cogitado inicialmente, mas preterido pouco depois. O título tinha consistência, afinal, Félix (Mateus Solano) foi capaz de praticar inúmeras monstruosidades por causa da rejeição de sofria de César (Antônio Fagundes). Porém, optaram por "Amor à Vida", que fez sentido apenas em relação ao momento em que Bruno (Malvino Salvador) achou Paulinha (Klara Castanho) na caçamba e salvou sua vida.

Avenida Brasil — O nome apenas fez uma referência ao atropelamento de Genésio (Tony Ramos), que morreu quando Tufão (Murilo Benício) o atingiu com seu carro na Avenida Brasil, o que desencadeou toda a história da trama. Porém, se formos analisar todo o contexto, o título não teve absolutamente nada a ver com a história de vingança de Nina (Débora Falabella) e muito menos com o Divino Futebol Clube.

Sangue Bom — A trama das sete abordava o mundo midiático e o conflito da protagonista Amora (Sophie Charlotte) entre o "ser" e o "ter". Essa situação servia para movimentar todos os núcleos e apresentava a temática de uma forma dramática e bem-humorada ao mesmo tempo. O título pouco tinha a ver com a história, a não ser pela bondade excessiva de Bento (Marco Pigossi) ou então pela real identidade de Amora, que, no fundo, bem lá no fundo, sempre teve um "sangue bom". Entretanto, partindo dessa premissa, o nome serviria para qualquer novela, uma vez que personagens bons sempre fazem parte de uma história, assim como os maus. Mas em se tratando do conjunto da obra, o nome não combinou.

Alto Astral — Alguém, em pleno 2014, ainda dizia que fulano é "mó alto astral"? Ou que achou tal festa "super alto astral"? Fora o título pra lá de ultrapassado, a novela explorava tramas envolvendo fantasmas e espíritos de forma leve e cômica — tudo a ver com "Búú", título original da trama que foi preterido.

Fina Estampa — A novela, teoricamente, faria uma discussão sobre o ser e o parecer, a partir do momento em que Griselda (Lilia Cabral) ficasse rica e adotasse uma "fina estampa", onde se questionaria se o que vale mais é a aparência ou o caráter — como bem sugeria a abertura e o título da novela. Mas isso não aconteceu. Aguinaldo Silva se perdeu em seu mote inicial e a trama descambou para o absurdo.

Salve Jorge — Glória Perez disse que o título provinha de uma saudação a São Jorge, santo que nasceu na antiga Capadócia, na Turquia — onde parte da história se passava —, e que era o padroeiro do protagonista, Théo (Rodrigo Lombardi), muito usada nas religiões afro-brasileiras — o que acabou gerando uma campanha de boicote de muitos evangélicos. Porém, São Jorge mais parecia um pano de fundo, pois não exerceu nenhuma grande importância para a história, que falava sobre o tráfico de pessoas.

Balacobaco — Desesperada com o fracasso de sua novela Máscaras, a Record chamou Gisele Joras para adiantar os trabalhos de sua nova produção, que se chamaria "Passado Próximo". Mas, desesperada como só ela, a Record decidiu mexer na sinopse da novela e resolveu colocar na nova trama tudo aquilo que não tinha em Máscaras, que era uma novela bem sombria. E foi assim que a emissora transformou o drama de Gisele Joras em uma novela de (pseudo) humor com nome cafona, o que, é claro, não deu muito certo. Se a expressão balacobaco significar samba do crioulo doido, posso afirmar que a novela teve um título certo.

Da Cor do Pecado — Longe de mim querer pagar de politicamente correto e sair problematizando tudo, mas o título da trama é uma expressão que faz a mesma associação de que negro é igual a negativo, só que de forma mais subliminar, não recorrendo a termos como negro ou preto. Ela é usada como elogio, porém, para quem é cristão, pecar não é nada positivo, ser pecador é errado e ter a sua pele associada ao pecado significa que ela é ruim. Portanto, é simplesmente uma ofensa racista mascarada de exaltação à estética, direcionada a mulheres negras — caso da protagonista da novela, Preta (Taís Araújo), literalmente.

Malhação — A novelinha já deixou de ter uma academia como cenário principal há anos.

Antonio Alves, Taxista — O ano era 1996 e o SBT, em uma atitude ousada, resolveu estrear três novelas em um só dia e uma delas era a cafona (não só no nome) Antônio Alves, Taxista, que trazia Fábio Jr. como o personagem-título. Mais cafona do que colocar o nome do personagem principal no título é acrescentar a ele a sua profissão. É como se Rock Story se chamasse "Gui Santiago, o rockeiro".

Pícara Sonhadora — Título que dispensa comentários, enche o mundo de piadas (alguém aí pensou em "pica sonhadora"?) e que só mesmo o Silvio Santos para ter gostado e aprovado um nome desses.

A impressão que fica é que os autores estão cada vez mais deixando o título de suas produções de lado. Claro que a história é a principal preocupação para quem a escreve, entretanto, o nome da mesma não pode ser apenas algo decorativo. Precisa sim se encaixar com o que é mostrado ao telespectador na telinha.

E vocês? Se lembram de algum outro título ruim ou/e inadequado de novela? Comenta aí!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

As piores coisas que aconteceram na TV durante o governo Dilma



Lembram do nosso Paredão no Planalto - Big Brother Brasília, onde a gente contou toda a história do impeachment da presidente Dilma numa linguagem bigbrotheriana (leia aqui)? De lá pra cá, aconteceu tanta reviravolta na nossa política de causar inveja na série americana House Of Cards. Prometo fazer um resumão em breve de todo esse rebuceteio. Eduardo Cunha foi afastado, aí o Maranhão assumiu a presidência da Câmara e anulou o impeachment da Dilma.

 

A esperança, porém, durou pouco para Dilma. Maranhão voltou atrás na sua decisão e, por 55 a 22, o Senado votou e decidiu pelo afastamento da presidente. A partir de agora, ela está afastada até 180 dias e quem assume oficialmente o governo não é o Aécio, mas sim o vice Michel Temer, cuja esposa bela, recatada e do lar se tornará a mais nova primeira-dama do país.


Sim, Dilma só foi afastada temporariamente. Ainda faltam longos meses para ela ser finalmente condenada pelo Senado. Mas por mais zona que esteja sendo o Brasil, nenhuma reviravolta política ou paredão fake conseguirá salvá-la mais de ser impichada. Dilma já está eliminada antes mesmo da grande final. Não tem mais jeito... Acabou... Boa sorte... Tchau, querida! Até logo! Até mais ver! Bon voyage! Arrivederci! Até mais! Adeus! Boa viagem! Vá em paz! Que a porta bata onde o sol não bate! Não volte mais aqui! Hasta la vista, baby! Escafeda-se! Saia logo daqui!


Até a crise política parar o Brasil, de 2013 pra cá (culminando em manifestações gigantescas contra a Dilma por todo o país), os supostos malfeitos do seu governo eram intangíveis para o cidadão comum. Mas já naquele período, era possível entender que alguma coisa não estava funcionando bem. Contra o aumento das passagens do transporte público? Contra os gastos da Copa do Mundo? Contra a corrupção? Por causa das pedaladas fiscais? Não. Não foi nada disso que levou ao seu impeachment. Confira a seguir alguns dos maiores reveses deste país durante o governo Dilma, em mais uma reportagem exclusiva do Eu Critico Tu Criticas.

Babilônia



A novela que fez questionar o gosto do brasileiro por novela. A novela que conseguiu arruinar o horário nobre da Globo para todo o sempre. A novela que aposentou Gilberto Braga. A novela que manchou a carreira da Camila Pitanga irreversivelmente. De fato, Babilônia foi um verdadeiro marco da dramaturgia nacional (ainda que por motivos tão negativos e eloquentes).

O cancelamento do Você na TV



Onde nesse mundo encontraremos um programa onde o namorado revela para namorada que gosta de chulé e quer que ela fique sem lavar os pés, onde uma filha é viciada em comer maquiagem para ficar bonita por dentro, onde uma mulher descobre que está grávida de um ET, onde acompanhamos o drama de uma mulher cujo namorado invisível sumiu? Nós brasileiros precisamos da dose extra de escapismo dos casos surreais, sem pé nem cabeça, que João Kleber apresentava com toda a empolgação para suportar continuar vivendo nesse mundo cão.

A decadência de Manoel Carlos



Se em governos anteriores, Manoel Carlos vinha numa sequência de novelas maravilhosas (Felicidade, História de Amor, Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas), o autor chegou ao fim de sua carreira novelística com chave de ouro falso e aquele gostinho de "já foi tarde" com a sonífera Em Família. Em 2014. Durante o governo Dilma. Hum... Coincidência?

A morte do Comendador



Virilidade, autoconfiança, senso de justiça, afetuosidade e capacidade de superação estão entre os principais atributos que fizeram de José Alfredo de Medeiros um personagem inesquecível, amado e querido em todo o país (e de Alexandre Nero, um divisor de águas na carreira), arrancando gritos e suspiros de fãs como se fosse um líder de boy band. E o que o Aguinaldo Silva faz? Mata o Homem de Preto com um tiro nas costas dado pelo próprio filho mesmo diante do apelo de milhões de brasileiros. Cadê o respeito pela democracia? Isso sim é golpe! Até hoje essa morte dói nos corações de quem shippava loucamente o casal Malfred...

O fim do mito JEC, aquele que nunca flopa e só faz novelão


Entre 2011 e 2014, a presidente Dilma tinha grande popularidade e cumpriu o desafio de manter o Brasil no rumo do desenvolvimento econômico e da redução da desigualdade. Um grande feito nesse período: o fenômeno Avenida Brasil, cujo último capítulo fez a Dilminha adiar até um comício. Em seu segundo mandato, porém, a coisa degringolou. A popularidade de Dilma foi caindo na mesma proporção que a de João Emanuel Carneiro. Dilma prometeu mundos e fundos e não cumpriu. A Regra do Jogo prometeu ser melhor que Avenida Brasil e, ehr, bem...


Xuxa na Record




Quando na vida que a gente poderia imaginar que um dia a nossa eterna Rainha dos Baixinhos mandaria "Beijinho, beijinho, tchau, tchau" para a Globo e se mudaria para a prima pobre da Globo? Nunca, né? Mas aconteceu. Xuxa na Record, estoque de vento, saudação à mandioca, cachorros ocultos atrás de crianças, mulheres sapiens... Isso só acontece no governo Dilma!

BBB pós-Ana Paula



Ana, A Louca. Veja em que situação me colocou. Após a sua expulsão, percebi que fiquei lendo com raro afã sobre a Lava-Jato, muito mais por conta da ausência de boas manchetes a respeito do BBB16 do que por qualquer convicção política. E a culpa é toda dela. Por que fez isso, Ana Paula? Depois de passar semanas acostumando o Brasil aos benefícios do entretenimento de alta octanagem, você simplesmente nos deixou sozinhos. Aqueles tapas não fizeram nem cócegas no Renan. Mas ainda dói demais no povo. Uma pena que tenha saído pela porta do confessionário e não em uma gloriosa noite de terça-feira em 5 de abril.


Isso posto, fica difícil defender um governo que não conseguiu barrar nenhuma dessas tragédias que machucaram de maneira catastrófica e irreversível o ego do povo brasileiro. P.S.: Esse post é todo trabalhado na zuera e qualquer tentativa de levá-lo a sério não será uma boa ideia.


sábado, 5 de março de 2016

O "calcanhar de aquiles" do João Emanuel Carneiro



Todo folhetim precisa ter subtramas para a história central poder se sustentar por vários meses no ar. Caso contrário, não há criatividade e reviravoltas que consiga elaborar constantes conflitos para o núcleo principal se manter atraente por longos meses. Portanto, nada mais normal do que a criação dos enredos paralelos. E é fundamental que o autor desenvolva situações secundárias tão envolventes quanto a central. Porém, não é o caso de João Emanuel Carneiro. Apesar de ser um dos autores mais criativos e venerados da atualidade e ter escrito obras e personagens memoráveis e de sucesso que sempre caem na boca do povo, as tramas paralelas são o seu maior "calcanhar de aquiles".


Em Da Cor do Pecado, haviam três núcleos cômicos: a família Sardinha, liderados pela Mamuska (Rosi Campos), o casal Edu e Verinha (Ney Latorraca e Maitê Proença) e o núcleo de Pai Helinho (Matheus Nachtergaele), que, dos três, era o único que corria sem qualquer relação com o restante do enredo. Enquanto a ação principal se passava no Rio de Janeiro, o falso pai de santo aprontava todas no Maranhão. Apenas no início, quando a protagonista, Penha (Taís Araújo), amiga de Pai Helinho, morava lá no Maranhão, e no final, quando ele se mudou para o Rio, que o núcleo conversou com as outras histórias da novela. A família de Eva (Eliane Giardini) também viveu situações que pouco tinham a ver com a saga principal de Cobras e Lagartos. Se não existisse, não faria a menor falta, até porque a trama tinha um apelo cômico fortíssimo que ia desde os principais, com Foguinho e Ellen (Lázaro Ramos e Taís Araújo), até aos coadjuvantes, com a divertidíssima Milu (Marília Pera).


E até mesmo A Favorita, acusada de não ter tido núcleo cômico, ofereceu doses de surrealidade quando a ex-retirante Maria do Céu (Deborah Secco) se casa com o gay enrustido Orlandinho (Iran Malfitano), que depois vira ex-gay, e o cotidiano desse inusitado casal, totalmente dentro de um apartamento, passou a ser uma novela à parte. Com exceção do ótimo drama da Catarina (Lília Cabral), dona de casa que sofria violência doméstica do marido, Léo (Jackson Antunes), nenhuma trama paralela se salvava na novela. Gente, o que era aquele personagem maluco do José Mayer (Augusto César, ex-roqueiro que acreditava em extraterrestres)?! Surreal! E chata! Muito chata!


E nem mesmo o fenômeno Avenida Brasil escapou das críticas negativas. Nesse caso, em relação ao núcleo Cadinho (Alexandre Borges), cujo tom farsesco das cenas do malandro destoavam do restante do enredo. Enquanto a trama como um todo buscava o naturalismo, Cadinho e suas três mulheres surgiam com um proposital exagero que usava e abusava de situações pra lá de surreais e absurdas. Além disso, a história corria totalmente alheia à trama principal. Se Cadinho e suas três mulheres não existissem, a novela pouco mudaria. Até porque a história ofereceu alívios cômicos (ou tragicômicos) em personagens que orbitavam ao redor do núcleo principal e estavam bem mais integrados ao enredo, tais como, Leleco (Marcos Caruso), Muricy (Eliane Giardini), Ivana (Letícia Isnard), Adauto (Juliano Cazarré) e Zezé (Cacau Protásio), e até mesmo na grande vilã Carminha (Adriana Esteves).


 A Regra do Jogo apresenta a mesma situação. Ascânio (Tonico Pereira) e Atena (Giovanna Antonelli), por exemplo, são personagens bem ricos dramaturgicamente e vivem numa atmosfera pesada e sombria, mas possuem uma dose de humor negro, sarcástico e irônico que quebra toda a densidade nas cenas. E não é que a dupla é bem mais engraçada que os ditos núcleos cômicos da trama?


O Morro da Macaca está para A Regra do Jogo como a Turquia estava para Salve Jorge, ou seja, poucos personagens dos muitos apresentados têm importância ou ligação com a trama central. É claro que não daria para colocar no morro só personagens chaves. Os coadjuvantes fazem parte. Mas poderiam ser em menor quantidade e ter alguma graça. É o caso do núcleo do funkeiro Merlô (Juliano Cazarré) e suas confusões amorosas com as dançarinas Ninfa (Roberta Rodrigues) e Alisson (Letícia Lima). As situações quase sempre se repetem a cada sequência, assim como a obsessão de Adisabeba (Susana Vieira) pelo filho. É um suplício ver aquele monte de personagens chatos na família do Feliciano (Marcos Caruso) em tão pouco espaço físico. Um tanto de gente sem função nenhuma naquela cobertura. Apesar de Caruso, Carla Cristina Cardoso (a empregada Dinorá) e Suzana Pires (a manicure Janete) se sobressaírem, o restante pouco podem fazer com situações que não atraem.


Também merece ser mencionado o quadrilátero amoroso envolvendo Tina e Rui (Monique Alfradique e Bruno Mazzeo) e Oziel e Indira (Fabio Lago Cris Vianna), com situações repetitivas de trocas entre os casais. Uma outra trama paralela, que não é de humor, mas também é pouco atrativa, é o núcleo de Domingas (Maeve Jinkings) com César (Carmo Dalla Vecchia). Inicialmente como um novo amor para ela, que sofria com a violência do marido Juca (Osvaldo Mil) em uma trama (mal) requentada de A Favorita, César, na verdade, se chamava Rodrigo e era um homem desaparecido que se culpava pela morte dos filhos em um acidente. As cenas de César são pouco atrativas em parte devido ao fraco desempenho de Dalla Vecchia, que outra vez interpreta um homem misterioso atormentado.


Como pode-se constatar, as tramas centrais sempre foram o forte das novelas do JEC. Já as paralelas, sempre foram um problema mesmo nas novelas de grande sucesso do autor, pois, em sua grande maioria, não acrescentam em nada à história principal. De fato, a história de vingança de Nina (Debora Falabela) contra Carminha (Adriana Esteves), o embate entre Donatela (Claudia Raia) e Flora (Patrícia Pilar), a história da facção em A Regra do Jogo e todas as tramas centrais das outras novelas do autor foram tão boas que são passíveis de perdão. Então só nos resta reservar os momentos das tramas paralelas nas novelas do JEC para tomar uma água, mexer no celular ou fazer xixi!

quinta-feira, 3 de março de 2016

A Síndrome pós-Avenida Brasil nas redes sociais



Recebi da leitora Andrea Marques pelo facebook um texto bastante interessante e coeso sobre Velho Chico e essa "síndrome" do público em querer uma "nova" Avenida Brasil. Confira-o na íntegra:

sábado, 30 de janeiro de 2016

A Regra do Jogo é a cara do Brasil

Assaltar um banco é perdoável? E roubar o local onde trabalha para pagar o tratamento de saúde da sua mãe? E furar uma fila? E comprar produtos sem pagar impostos? E matar para sobreviver? Qual o limite entre o certo e o errado? Até que ponto um crime pode ser perdoável? Existe um livre arbítrio? Podemos mudar o destino que está reservado para gente? Antes de responder todas essas perguntas, é importante refletir sobre o que define o caráter de uma pessoa. Em A Regra do Jogo, os personagens criam as suas próprias regras no jogo de acordo com o que acham certo ou não e colocam à prova questões que envolvem a ética, os valores e os limites de cada ser humano na nossa sociedade.

Se eu pudesse descrever A Regra do Jogo em uma só palavra, ela seria ambiguidade. Nesta história, o improvável conduz o desenrolar da trama e nem tudo é o que parece ser. Há os personagens que não são aquilo que dizem ser e outros que se comportam e tomam atitudes inesperadas, cujas explicações estão em um passado cercado de mistérios. É normal que os personagens mudem de lado, trilhem caminhos bem diferentes a cada situação ou, até mesmo, enganem o público por vários capítulos. A regra desse jogo é a sobrevivência, por isso, é difícil saber quem são os mocinhos e vilões dessa história e a todo momento as posições podem se inverter, o que já virou uma marca registrada do autor, João Emanuel Carneiro.

Zé Maria (Tony Ramos) é um desses personagens que enganou muita gente lá no início da trama, inclusive o próprio filho, Juliano (Cauã Reymond). Quem o considerava uma vítima da facção levou um susto ao descobrir que ele era um dos piores bandidos da quadrilha, responsável pelo famoso "Massacre da Seropédica". Entretanto, apesar de ser um assassino frio, Zé Maria tinha um ponto fraco: a família. O amor verdadeiro pelo filho, por Kiki (Deborah Evely) e pela pequena Aninha fizeram com que o bandido virasse uma espécie de herói vingador e se voltasse contra a facção com o objetivo de destruí-la. Para tanto, simulou a própria morte, mudou de aparência e assumiu uma nova identidade, Pedro Vargas. Mas será que um homem que já sequestrou tanta gente, matou dezenas de inocentes, colocou o próprio filho Juliano na cadeia, entre outras atrocidades, é mesmo capaz de mudar?


E o que dizer de Romero Rômulo (Alexandre Nero), o protagonista mais complexo e ambíguo da história das telenovelas brasileiras? JEC conseguiu apresentar com maestria o caráter dúbio do ex-vereador. Até hoje não sei quem ele é e o que ele quer de verdade. Confesso que não sei dizer se ele ama a Tóia (Vanessa Giácommo) ou a Atena (Giovanna Antonelli). Afinal de contas, em que time o Romero joga? Seria um lobo em pele de cordeiro ou um cordeiro em pele de lobo? Mesmo que ele tenha feito algumas coisas boas na vida e tenha salvado a vida de muita gente, não podemos esquecer que o ongueiro foi responsável indiretamente pelo "Massacre da Seropédica", foi capaz de simular vários assaltos e engana todas as pessoas que mais lhe amam. Os ongueiros de morro na vida real e os defensores dos direitos humanos podem ficar meio puto com as ações do moço. Acontece. Tem ONG séria, mas todos nós sabemos que existem sim muitas ONGs de fachada e existem sim defensores que usam dos direitos humanos para protegerem bandidos. Romero até tentou se regenerar, mas vários fatores o empurraram de volta para o mau caminho: a tentação de ganhar muito dinheiro, a pressão de Atena e as ameaças da facção. Será que ainda resta uma esperança para a alma do pilantra?


Que Dante (Marco Pigosi) é o policial mais incompetente da história da teledramaturgia brasileira, disso eu já estou cansado de falar (relembre aqui). Mas será que JEC não quis representar na figura do ingênuo policial a inoperância da polícia brasileira devido aos altos índices de violência registrados em todo o país e uma crítica a violência policial na relação entre ele e Juliano (Cauã Reymond), vítima do abuso de autoridade do policial lá no início da trama, quando eram rivais? A Regra do Jogo apresentou uma série de situações criadas e deixadas pelo caminho, sem muita explicação (relembre aqui), como os assassinatos de Djanira (Cassia Kiss), do delegado Faustini (Ricardo Pereira), do jornalista Dário (Alcemar Vieira), entre outros, que foram totalmente esquecidos. Pode ser um furo no roteiro do autor, mas não deixa de revelar uma realidade do Brasil: a do "ninguém sabe, ninguém viu". Diariamente, ocorrem vários crimes e que demoram anos para serem descobertos (quando são descobertos!) e os culpados serem punidos (quando são punidos!).

E nem as tramas paralelas da novela escapam. A família do Feliciano (Marcos Caruso), por exemplo, tem um pé muito forte na realidade que o povo brasileiro enfrenta todos os dias no sentido dos personagens envolvidos estarem sempre vivendo em crise. O Breno (Otávio Müller) perdeu o emprego e tenta se virar como pode, o Vavá (Marcelo Novaes) não consegue ser um personal com muitos clientes, a manicure Janete (Suzana Pires) idem, a empregada Dinorah (Carla Cristina) não recebe salário... É a personificação do famoso "jeitinho brasileiro". Para o bem ou para o mal.


Atena e Ascânio (Tonico Pereira) protagonizam algumas das melhores cenas cômicas da novela, ainda que esse não seja o propósito principal da dupla. Entretanto, não podemos esquecer que ambos fazem parte da facção e não valem nada. Atena é uma estelionatária que já enganou meio mundo e trambiqueira de mão cheia e Ascânio trazia menores de idade para a facção (inclusive, foi ele que levou Romero para o mundo do crime) e chegou até a matar uma personagem a mando da facção, a Sueli (Paula Burlamaqui), amiga de Atena. Ou ele matava ou a facção matava ele. Podemos dizer que Ascânio matou para sobreviver, então foi perdoável a sua atitude, né? Ou não?

Até o centésimo capítulo, Gibson (José de Abreu) não fazia a menor diferença na trama. Mas JEC estava preparando uma surpresa para os telespectadores. Revelado como o Pai da facção, Gibson cresceu e tornou-se um malvadão digno de entrar para a galeria dos grandes vilões do horário nobre, pois já mostrou que é capaz de qualquer crueldade, inclusive contra a própria família. Tudo, segundo ele, em nome de uma "causa" maior que ele julga certa, como se os fins justificassem os meios. E justificam? As falas reacionárias de Gibson em cena podem ser um choque para o público, mas são como a que ouvimos na vida real de muitos outros elitistas. Além disso, Gibson ser o Pai da facção toca em uma ferida aberta da sociedade: a justiça com as próprias mãos. Isso porque o "coxinha" resolveu criar a facção depois de sofrer um grande trauma no passado, durante um assalto, quando sua casa foi invadida por marginais, que torturaram sua família. Após presenciar o momento de terror, ele resolveu sentenciar os bandidos e contratou Zé Maria para assassiná-los. Ele, por sua vez, arrumou mais capangas, nascendo, assim, a facção. Gibson possui sonhos elitistas de grandeza, como se quisesse dominar todo o país, e criou esse "exército" para tirar toda a "corja" que está no poder. Em um momento de crise política e de puro desencanto da população com o governo corrupto do nosso país, A Regra do Jogo se tornou a cara do Brasil atual.



"É só uma novela", é o que muitos devem estar dizendo. Eu sei. Mas é inevitável traçar um paralelo com o Brasil atual. Até porque novela não é só entretenimento, mas também uma faísca para despertar reflexão no público. O que não chega a ser nenhuma novidade nas obras de JEC. Avenida Brasil, por exemplo, aproveitou bem a situação socioeconômica do Brasil de 2012 para refletir na tela um retrato pitoresco de nossa realidade contemporânea. O fictício bairro do Divino era, na verdade, um microcosmo do Brasil e foi responsável por todo o mega sucesso da novela, que levou diariamente milhões de brasileiros à frente da TV e que repercutiu nas ruas e na Internet. Como em poucos exemplos em nossa teledramaturgia, o brasileiro se viu refletido na trama.

A chamada "nova classe C" retratada na trama fisgou todas as classes. Como em um jogo de certo ou errado, o autor brincou com as nuances simbólicas de ricos e pobres, elaborando uma crítica social muito pertinente, seja através da grã-fina da Zona Sul que fazia pouco caso da figura do suburbano ou no velho-pobre novo-rico que zombava do velho elitismo. Avenida Brasil, além de ter tido uma ótimo história, é claro, retratou a classe média brasileira de forma eficiente e refletiu mudanças na sociedade, afastando-se dos personagens e bairros ricos que geralmente estão no centro das tramas, diferente do novo rico do passado, que queria parecer quem não era e tinha vergonha de falar de onde vinha. Prova disso era a Família Tufão (Murilo Benício), que enriqueceu, mas continuava com o jeito suburbano de ser e construiu uma mansão no Divino só para não se mudarem da zona norte.

Dessa vez, JEC vem retratando o funcionamento de um esquema mafioso entranhado nas camadas da nossa sociedade com a sensibilidade que o jornalismo não alcança ou se recusa a encarar. A similaridade com a realidade atual do nosso país assusta muito. Muitos se sentem instigados em acompanhar, outros ficam incomodados. Estamos vivendo um momento de insegurança, decepção e desesperança com o Brasil. Por isso, talvez seja custoso para a maioria ver o mal se sobrepor tão acintosamente na hora que a mente pede distração. Invariavelmente, A Regra do Jogo só mostra um único final: a cidade literalmente se transformar em uma Gotham City, onde somente um super-herói poderá salvá-la, já que 99% dos personagens não possuem qualquer tipo de princípio.




sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Personagens de novela que você não deve chamar pro seu almoço de Natal (a não ser que queira ver o circo pegar fogo!)


 
Almoço de Natal tem sempre muitas chances de rolar treta. As pessoas já estão cansadas de terem se visto na noite anterior, estão comendo comida de sobra, podem se lembrar de coisas meio desagradáveis que aquele tio bêbado falou na noite passada, podem estar ressentidas por terem ganhado meias ou toalhas de banho, enfim... Quem nunca presenciou um barraco estilo Casos de Família no almoço de Natal, que atire a primeira pedra. Já diria minha querida vózinha: onde tem gente, tem problema e onde tem família então, nem se fala. Para não rolar brigas, é sempre bom evitar aquelas pessoas encrenqueiras (a não ser que você queira ver o circo pegar fogo). Pensando nisso, criei uma lista com alguns personagens que seria melhor você não chamar pro seu almoço de Natal se não quiser ver o peru enfiado naquele lugar onde o sol não bate de alguém:

 

Consuelo (Babilônia)

 
 
Eu não chamaria a Consuelo (Arlete Salles) para nenhuma situação social, imagine então para uma festa de família? Sem papas na língua, ela é aquela pessoa que fala na cara quando alguém tá vestindo uma roupa feia ou quando engordou. Sabe aquela típica tia que sempre pergunta sobre as namoradinhas? Pois Consuelo seria aquela que soltaria um "ele nunca trouxe namorada aqui porque é gaaaaay!" ou "ela nunca trouxe namorado aqui porque é sapatona, sua indecente, imoral". Certamente, se você chamasse a Dona Consuelo para o seu almoço de Natal, ela soltaria ofensas para todos os lados em nome da moral da Família Brasileira e a comida teria gosto de indigestão!

 

Nelita (A Regra do Jogo)



Nelita (Bárbara Paz) jogaria no ventilador os podres de todo mundo depois de ficar bêbada e dar muito vexame. É possível imaginar Nelita dançando de maneira erótica e exagerada na presença de familiares e usando roupas e vocabulário que deixariam suas tias crentes escandalizadas.


Stephanie (A Usurpadora)


 
Típica pessoa que deve odiar Natal, papai noel, gente feliz, almoço em família e dar presente. Ia ser aquela sua tia que te dá meia e roupa porque é uma coisa "que usa bastante". Contaria para as crianças que Papai Noel não existe e arrancaria a barriga postiça do tio que se veste de bom velhinho na frente de todo mundo. Além disso, insinuaria que aquela sua tia meio perua trai o seu tio e passaria o almoço toda falando como ela é uma pessoa de bem e o resto do mundo não. Pior escolha pro seu almoço, evite!


Cora (Império)


 
Cora (Drica Moraes) parece muito com aquela sua tia amarga que não aguenta ver ninguém um pouco feliz que já manda uma ofensa. É aquela pessoa que vai comer na casa dos outros e fala mal dos pratos, da comida, da decoração, das outras pessoas, enfim... Cora é torta de climão na certa!
 
 

Leleco (Avenida Brasil)


 
"Olha o pavê, galera. É pra ver ou pra comer?". CORTA DA SUA LISTA JÁ!!!

 

Léo (A Favorita)


 
Pior que o tio do pavê, esse é aquele cara que fica fazendo piadinha de mau gosto na mesa. Machista que só, certamente seria o cara que ficaria dando liçãozinha de moral e de bons costumes enquanto todo mundo almoça. Diria que a filha de não sei quem sai com muita gente, que mulher que não se dá o respeito "não merece respeito", que se a pessoa sai de roupa curta tá pedindo, entre outros desmandes. É o tipo de pessoa que eu não aprovaria na minha casa nunca, muito menos no Natal.


Serginho (Boogie Oogie)


 
Se você não quer que todos os seus segredos mais íntimos sejam revelados na mesa de Natal no meio da família toda, é melhor tirar Serginho (João Vithor Oliveira) da lista dos convidados.
 
 

Giovanna (Verdades Secretas)

 
 
A Giovanna (Agatha Moreira) seria aquela pessoa meio sem controle, que depois que bebe sai pegando aquele cara meio capenga da festa e sai falando verdades secretas pra todo mundo que estiver pela frente. Sempre ácida e irônica, em menos de dois minutos de almoço já estaria abraçada em uma garrafa de espumante flertando com o primeiro homem solteiro que vê pela frente.


Danny Bond (Felizes para Sempre?)


 
Não recomendamos Danny Bond (Paolla Oliveira) na sua lista de convidados porque ela pode deixar todos os homens babando no seu bundão, criando um imenso climão com as mulheres presentes. Pior que isso: ela pode ter ido pra cama com várias pessoas no almoço! Melhor não arriscar.



Pensando bem, acho que eu convidaria todos eles sim pro meu almoço...

 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A ascensão das favelas na nossa dramaturgia


Só em 2015, tivemos três novelas da Globo cujo cenário principal era uma favela. São elas: I Love Paraisópolis, cujo título se refere de forma tão amorosa a uma das maiores e mais violentas favelas de São Paulo, Babilônia, que tinha seu nome emprestado de uma favela no Leme, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro; A Regra do Jogo, que se passa no fictício Morro da Macaca, também no Rio. As três, no entanto, mostraram uma visão diferente do subúrbio. A primeira trama não mostrou absolutamente nada a respeito de criminalidade ou tráfico de drogas, a segunda tinha muito mais cenas rodadas no "asfalto" no que no morro e esta última mostra uma favela que é point cultural, frequentada pelos moradores, pelo pessoal do "asfalto" e até mesmo pela "alta sociedade". Mas você sabe como foi que as favelas começaram a ter um destaque maior nas novelas?


Para começo de conversa, nesta matéria optei por usar o termo "favela" ao invés de um eufemismo 'politicamente correto' como "comunidade", até porque a palavra está longe de ser considerada pejorativa. Segundo o dicionário 'Houaiss', por exemplo, favela é "um conjunto de moradias precárias, situada em morros e onde vive a população de baixa renda dos centros urbanos". Curiosamente, embora sempre presente na sociedade brasileira, tal localidade quase nunca era abordada na nossa dramaturgia televisiva. O oposto acontece no cinema, onde temos até um boom de filmes com esse tipo de temática (podemos citar Cidade de Deus, Tropa de Elite e Alemão).


Citada antes esporadicamente em algumas novelas, a primeira vez em que uma favela de fato ganhou importância numa novela foi em Pátria Minha (1994). Na história, Claudia Abreu interpretava Alice, uma estudante super correta que entra em guerra contra o empresário Raul (Tarcísio Meira), que comete uns crimes impunemente e depois ainda manda desapropriar uma favela. Quase uma década se passou até uma favela voltar a ter importância em uma nova trama. Em 2004, Senhora do Destino apresentou a Comunidade da Pedra Lascada, uma região subdesenvolvida do subúrbio carioca que visava conseguir uma emancipação. A tal comunidade tinha grande destaque porque a protagonista Maria do Carmo (Susana Vieira) tinha um forte laço afetivo com o local e sempre ajudava seus moradores, de quem era amiga e respeitada por todos.

Nos últimos 12 anos, o Brasil passou por alguns processos políticos que visaram dividir melhor a renda e isso gerou a ascensão da classe C, um novíssimo público consumidor que virou a menina dos olhos de ouro do mercado publicitário e o pesadelo das emissoras acostumadas a produzir dramaturgia só pensando nos núcleos mais ricos. Nesta última década, os personagens mais pobres foram conseguindo mais destaque e as tramas passaram a se deslocar dos bairros ricos para o subúrbio. Não que isso seja inédito, já que Rainha da Sucata e outras novelas mais antigas também davam voz aos mais pobres, mas tornou-se mais comum nos últimos anos.


Podemos dizer que a primeira novela a colocar uma favela em papel de destaque foi Vidas Opostas (2006), da Record, que aproveitou a explosão do tema no cinema e produziu uma novela que misturava um núcleo rico com moradores de uma favela, com direito a muito "tiro, porrada e bomba". Muitas cenas, inclusive, foram gravadas em uma comunidade real. Na Globo, devido ao sucesso da concorrente, a trama que marcou o destaque absoluto de uma favela veio logo depois, em 2007, com Duas Caras, ambientada na fictícia Portelinha e que também mostrou a diferença social colocando uma comunidade pobre localizada ao lado de um empreendimento de luxo. 

Atualmente, muitas novelas já mostram favelas pareando em importância com bairros mais ricos, algumas vezes até superando as antigas localidades de destaque. Avenida Brasil e Cheias de Charme, por exemplo, acertaram em cheio ao mostrar um subúrbio mais alegre e divertido, enquanto Salve Jorge foi a pioneira em colocar como protagonista uma mãe solteira moradora do Complexo do Alemão, um tipo que provavelmente seria apenas coadjuvante em novelas do passado. E para mostrar que não se trata de um fenômeno pontual, podemos lembrar de um exemplo ainda mais recente: Em Família foi escrita por Manoel Carlos, autor conhecido por colocar suas histórias apenas em bairros ricos do Rio de Janeiro (Leblon), mas mesmo assim precisou se adequar às novas necessidades da emissora e até incluiu uma "favela" improvisada com um personagem, Jairo (Marcelo Melo Jr.), que conseguiu um destaque maior que o esperado.


Entretanto, parece que a fórmula exaltada até pouco tempo atrás não está dando muito certo. Desde sua estreia, A Regra do Jogo ainda não empolgou na audiência e acumula, até o momento, média de 25 pontos (a meta para o horário das nove é de 35), mesma marca de sua antecessora, Babilônia, tida como o maior fracasso do horário nobre global de todos os tempos. Curioso que as duas têm em comum a ambientação em favelas. Com isso, várias questões vem sendo levantadas: será que duas novelas simultâneas focadas em favelas não são um pouco demais? Será que não está na hora da Globo buscar novos cenários para as suas novelas, afinal, o Brasil é muito maior do que isso? O público está cansado de tramas que se passam nas favelas?


Babilônia foi uma trama rejeitada pela maior parte do público e boicotada por evangélicos pelas cenas polêmicas iniciais, por sua trama mal remendada e pelas mil e uma mudanças que a trama e os personagens sofreram para "agradar a Família Brasileira", deixando-a ainda mais equivocada e perdendo sua identidade. Mas em nenhum momento o fato dela ter se passado na favela foi o motivo da sua baixa audiência. E cá entre nós, até onde me lembro, nunca havia ouvido falar de alguma reclamação do público que novelas seguidas na Globo eram todas centradas em bairros ricos do Rio de Janeiro! Mas se o problema são mesmo as favelas, então porque I Love Paraisópolis teve uma boa audiência? Estranho, não!? Pelo visto, com o passar dos anos teremos cada vez menos distinção entre as áreas mais ricas e mais pobres das cidades, até porque sabemos que o primordial de uma novela não é o cenário, e sim sempre contar uma boa história.


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